domingo, 24. janeiro 2010 10:33
Como uma divindade da música, calça e paletó de smoking, Ana Carolina surge no alto do palco, cantando e tocando guitarra, sentada em cadeira adaptada à grua que, perto do fim do tema de abertura, desce lentamente até o tablado. A cortina translúcida na qual era projetada a imagem de um céu com nuvens se abre e identificamos a banda, amontoada no canto esquerdo do palco, enquanto o direito tem ao fundo três telas verticais onde se alternam cores da iluminação e novos vídeos.
Ela e seus afiados músicos parecem atacar já com toda pressão, impressão que se prolonga por quase toda a 1 hora e vinte e tantos minutos do espetáculo. As exceções, quando cantora e banda dosam a pegada, são “Traição”, com dois pianos de armário frente a frente, um deles com Ana, viajando alto com a bela balada jazzy que gravara em dueto com Esperanza Spalding; e uma outra balada, “Corredores”, que canta com uma cortina de água caindo como chuva (????).
Se musicalmente o exagero prevalece, num estilo pop de arena, no transcorrer da noite, as intervenções da direção (Bia Lessa) começam a ser constragedoras – o que é aquela cadeira que corre num trilho da direita para a extrema esquerda do palco e volta enquanto Ana tenta passar naturalidade e, ao mesmo tempo, a habitual dramaticidade de suas interpretações?
O entusiasmo do público, no entanto, mostra que K e eu (mais minha irmã, S) também somos exceção. Ontem, noite de sábado, quinto e último dia da temporada lotada, ao chegarmos ao Citibank Hall, cerca de 22h20m, as poucas mesas vazias eram as do gargarejo, na sua maioria reservada a convidados, que foram sendo ocupadas a partir das primeiras músicas.
A turnê tem tudo para repetir o sucesso das duas semanas cariocas. Mas o show tem mais argumentos para os milhões de amigos e conhecidos nossos que a odeiam, do que pra nós, que aprendemos a sentir a musicalidade de Ana Carolina.
Sim, gostei também da sequência de sambas, só que é imperdoável a falta de “Cabide”, que escreveu pra Mart’nália mas realmente tirou essa pérola da ostra na regravação com Luiz Melodia – lançada no recente e híbrido “Ana Car9lina + um”.
Pela madrugada e manhã de hoje, até finalmente levantar, já pelas 10h, muitas das canções de Ana que realmente adoro visitaram minha cabeça sonolenta e preguiçosa, mesmo algumas que me soaram tocadas de forma errada, como essa, que cito de novo, enfiada no meddley com “É isso aí”: “A canção tocou na hora errada”, pedra preciosa pop da lavra (e lapidada por) de Ana…; e ainda “Resta”, outra balada pop arrebatadora, e que funcionou bem ali sem a voz da parceira Chiara Civello (composição que também tem coautoria de Dulce Quental) – ao contrário da frieza de “Entreolhares” com a voz em off de John Legend -; “Tá rindo é”, samba-pop perfeito (parceria com Mombaça e Antônio Villeroy), um dos que me abduziu enquanto eu acordava….
Nesses últimos anos, aos poucos conheci melhor e gostei mais da obra de Ana, com quem também desenvolvemos uma relação amigável – “criticamente promíscua”?. K e eu estivemos com ela em algumas oportunidades, festas, coquetéis, e sempre foi bacana, jovial… AC tem autocrítica e vai atrás.
Ontem, terminado o show, M nos convidou a correr até o camarim, mas não me achei confortável e não sei disfarçar. Mandamos beijos. Não quis ser água no chopp de uma noite festiva, com o público em êxtase…
Então, agora, segue algo do que eu não conseguiria falar no camarim.
e outro beijo ainda à distância - K, que mandou bem nas fotos (e nos vídeos, que algum dia tentarei botar, assim que achar um substituto pro YouTreco), manda também.
Fonte: O Globo Blogs/ Antônio Carlos Miguel